O Futuro Hoje: Vantagens da vídeo-consulta e importância da pré-habilitação

A era digital ao serviço dos cuidados de proximidade e os conceitos de pré-habilitação e reabilitação na abordagem dos sobreviventes de doença oncológica estiveram em destaque na segunda mesa do III Simpósio Ibérico de Radioncologia, moderada por Elisabete Soares, enfermeira do IPO do Porto.

A partir de Barcelona, a enfermeira Paula Perez, do Hospital del Mar, apresentou os resultados de um estudo observacional transversal prospetivo (entre 2018 e 2020) realizado pela sua equipa com o objetivo de medir a satisfação dos utentes face à teleconsulta de enfermagem em Radioterapia, bem como analisar as variáveis sociodemográficas dos utentes utilizadores deste serviço.

“Apurámos que a idade média do utente de teleconsulta é de 58 anos (idade máxima: 82 anos) e que as radiodermites foram o principal motivo de consulta”, adiantou a enfermeira espanhola.

As vantagens deste modelo para doentes, profissionais e sistema de saúde são “inegáveis”, desde logo a rapidez e agilidade no acesso, bem como a prevenção das infeções nosocomiais em sala de espera, mas também uma “paradoxal” humanização dos cuidados apesar do uso da tecnologia. Ainda a registar como mais-valias da teleconsulta, a poupança em termos de custos com transportes e a redução da emissão de gases poluentes para a atmosfera.

A principal desvantagem, segundo Paula Perez, “é, sem dúvida, a falta de interoperabilidade dos sistemas informáticos entre hospitais”.

Em jeito de conclusão, a enfermeira referiu que “os doentes têm uma atitude recetiva face a este modelo, que aumenta a acessibilidade e equidade de cuidados e melhora a continuidade de cuidados, mas que exige uma personalização e permanece com o um complemento e não uma alternativa ao modelo presencial”.

“SobreViver Além do Cancro” foi o tema da apresentação de Rosa Ascensão, enfermeira de Radioterapia no IPO do Porto, que abordou as particularidades do sobrevivente de cancro e o conceito de pré-habilitação oncológica, cuja implementação – a par da reabilitação – se configura cada vez mais como uma boa prática na prestação de cuidados, numa altura em que são crescentes as taxas de sobrevivência oncológica, bem como a preocupação com a qualidade de vida dos doentes, numa lógica de “dar mais vida aos anos e não apenas mais anos à vida”.

No que respeita às particularidades do sobrevivente oncológico, Rosa Ascensão salientou que “a maioria dos doentes oncológicos experiencia limitações físicas e cognitivas associadas à doença e a várias modalidades terapêuticas; estas morbilidades condicionam de modo importante a qualidade de vida dos mesmos; durante a radioterapia surge um momento favorável à promoção da saúde e prevenção da doença”. Segundo a enfermeira, o impacto do tratamento oncológico é grande e inclui problemas como alterações da imagem corporal, dor crónica, depressão, disfunção sexual, disfunções cognitivas, ansiedade, limitações funcionais, alterações de deglutição.

É precisamente aqui que entram dois conceitos fundamentais: “a rehab (reabilitação) e a prehab (pré-habilitação). Enquanto a reabilitação – cuja implementação na área oncológica em Portugal ainda não tem a dimensão desejável – “é a intervenção que mais ganhos pode ter em qualidade de vida, não descurando obviamente a intervenção terapêutica” e que deve ser “individual, multifatorial e adaptada à realidade do doente (realista)”, a pré-habilitação consiste na otimização da capacidade funcional do doente antes de começar os tratamentos, pelo que se intui como particularmente importante em Radioterapia.

De acordo com Rosa Ascensão, “muita evidência tem surgido nestas duas áreas complementares, que representam um continuum de intervenção desde o momento do diagnóstico até ao paliativo, adaptado ao doente e à fase em que está, individualizado e flexível”. A este respeito, sugeriu a leitura do livro Exercise Oncology.

Como mensagens a reter, a enfermeira apontou:

– A preocupação com a qualidade de vida dos sobreviventes de cancro deve começar no momento do diagnóstico;

– A reabilitação deve estar presente em todas as etapas do processo de saúde/doença;

– A prescrição de exercício físico em Oncologia deve ser efetuada por profissionais habilitados;

– A Radioterapia é um dos momentos de excelência para promover comportamentos saudáveis.