“A arte como forma de expressão e como terapêutica para quem está a vivenciar doença oncológica é um tema completamente diferenciador para nós, enfermeiros”.
Foi desta forma que a presidente da AEOP, Ana Paula Amorim, deu o mote para a sessão Meet the expert, apresentando a palestrante convidada da primeira mesa deste segundo dia de trabalhos: a professora e investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Susana Noronha.
A doença da mãe – um sarcoma dos tecidos moles – levou a socióloga a sentir que “como filha, como mulher, como investigadora, tinha que fazer algo de produtivo com esta experiência”. Oscilando entre a Antroplogia e a Sociologia, lançou-se num olhar sobre projetos de arte levados a cabo por e com mulheres (fotografia), que refletem os saberes das pessoas com cancro e a sua criatividade. Percebeu que “a arte é um pedaço de cancro, não apenas uma representação; que não há distinção entre experiência e arte”. E assim, desta “mistura muito eclética” entre biomedicina e arte, nasceu uma nova ontologia.
De acordo com Susana Noronha, a arte tem o poder de “tirar o cancro de fora da pele: tornando-o replicável, partilhável, ao passar a experiência para o nível visual”. O grande impacto da fotografia, segundo a investigadora, “é o que ela traz de diferente: uma nova realidade dos corpos cicatrizados, operados, calvos, amputados… É a arte a construir sentido, uma história a ser contada e o cancro a ser desmontado de uma experiência individual para uma dimensão/narrativa social”.
No que respeita aos cancros terminais, o trabalho da palestrante mostra-nos que “o que sobra, na ligação com o mundo, é a arte”.
No seu doutoramento, Susana Noronha trabalhou no tema “Objetos feitos de cancro”, impulsionada pela necessidade de perceber o impacto dos objetos biomédicos, mas não só, na experiência oncológica. “As primeiras/emoções sensações do que é ter um cancro acontecem no contacto com estas materialidades (no papel do diagnóstico, na cadeira da sala de espera)”, apontou a socióloga, que investigou ainda a carga emocional dos objetos que as visitas levam aos doentes internados (como fotografias de familiares ou ursos de peluche), bem como a carga deixada nos objetos pertencentes ao doente e que ficam quando este morre.
“A forma como complementamos os objetos e eles a nós, levou-me ao conceito da terceira metade das coisas”, revelou.
“Cancro sobre papel” foi uma das mais recentes investigações de Susana Noronha, baseada em conversas gravadas com oito mulheres que viveram uma experiência de doença oncológica. Com este trabalho – que desmontou a sua noção do que é ser inteiro/completo – a investigadora percebeu que o que sentimos e imaginamos também é real no processo de doença.