Desenvolvimento & Inovação: Radiologia de Intervenção, ostomias de eliminação e TKI

Numa edição dedicada à “Inovação e Excelência dos cuidados para melhores resultados” não podia faltar na AEOP16 uma sessão dedicada aos desenvolvimentos diagnósticos e terapêuticos mais recentes, com os enfermeiros oncologistas a provar que, na sua prática diária, não têm passado ao lado dessa informação. Antes, têm abraçado o desafio com dinamismo e rigor.

O modelo de enfermagem em Radiologia de Intervenção, partilhado em Espinho pelo enfermeiro Davide Fernandes, do IPO do Porto, é exemplo disso mesmo. Sendo a Radiologia de Intervenção essencial no diagnóstico (inicial, estadiamento e reestadiamento) e no tratamento (curativo e paliativo; resultante da doença ou da iatrogenia) e o papel da enfermagem cada vez mais central neste contexto, em sede de equipa multidisciplinar, Davide Fernandes apresentou um guia desenvolvido com chancela da AEOP nesta área: “Domínios de Intervenção da Enfermagem Oncológica em Radiologia de Intervenção”.

De acordo com o enfermeiro, “pretende-se que seja um documento de referência para os enfermeiros que trabalhem em serviços de Radiologia de Intervenção, uniformizando deste modo, procedimentos e cuidados de enfermagem seguros, assentes em conhecimento científico atual e que suporte a prática clínica”.

Para o futuro próximo, o palestrante delineou um conjunto de metas para a atuação do enfermeiro no campo da Radiologia de Intervenção, que passam pela definição do escopo de intervenção (determinação de características que enquadram competência diferenciada na conceção de cuidados), pelo incentivo à produção científica pela diferenciação ao nível do contexto clínico (prática baseada na evidência) e por uma conceção menos tecnicista e orientada para “patient-centered care”.

Na sessão moderada pelas enfermeiras Cristina Lacerda (IPO de Lisboa) e Inês Frade (Hospital da Luz), Ana Almeida, enfermeira do IPO do Porto apresentou um modelo de enfermagem em ostomias de eliminação, bem como um consensus paper nesta área.

“Este documento tem como finalidade fornecer um conjunto de recomendações baseadas na evidência científica para a conceção e implementação de cuidados à pessoa ostomizada; padronização de cuidados para apoio aos profissionais, que no contexto da sua prática clinica contactam com doentes com diferentes tipos de ostomias de eliminação nos diferentes níveis de cuidados; linhas orientadoras para perceber as particularidades do doente oncológico, servindo de referência de apoio à decisão”, salientou a enfermeira. “Partindo do pressuposto do cuidado centrado na pessoa, este documento orientador permitirá ao profissional de saúde construir cuidados individualizados, traçando um caminho com base no que a pessoa espera do seu tratamento e equipa de saúde”, acrescentou.

Segundo Ana Almeida, “os resultados desta linha de consenso vão ao encontro do que determina o exercício da enfermagem oncológica, descrito no regulamento da Ordem dos Enfermeiros, valorizando a investigação como contributo. Apresenta intervenções que asseguram um processo de transição, promovendo a qualidade dos cuidados prestados, consolidando o conhecimento nesta temática”.

É objetivo principal deste consensus paper “servir de orientação ao planeamento de recursos e cuidados de enfermagem específicos à pessoa submetida a ostomia”, adiantou a palestrante. Alicerçada por uma revisão da literatura, conduzida por um grupo diversificado de peritos na área, este documento veicula informações consensuais, baseadas na evidência, que promovem a aquisição de conhecimento científico e que podem ser utilizadas diariamente e com segurança em contexto de prática clínica.

A inovação terapêutica, sempre presente no dia a dia do enfermeiro oncológico, não ficou de fora e a gestão das complicações em doentes tratados com TKI foi abordada pela enfermeira Ana Afonso, Centro Hospitalar Universitário do Algarve, em representação do Workgroup das Terapêuticas Sistémicas Antineoplásicas.

Os TKI são um subtipo das terapias-alvo, que atuam interrompendo as vias de transdução de sinal das proteínas cinase através da sua inibição. “Os eventos adversos são diferentes e menos intensos, apresentando desafios aos enfermeiros oncologistas”, alertou a enfermeira, explicando que “a necessidade de redução de dose ou interrupção do tratamento pode comprometer a sua eficácia”.

Ciente de que a gestão precoce e individual dos sintomas associados ao tratamento assegura melhores resultados em saúde e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida para os doentes, Ana Afonso frisou a imperiosidade de “identificar e gerir o mais precocemente possível os eventos adversos, para obter melhores resultados em saúde”.

Neste sentido, o papel dos enfermeiros oncologistas é central na monitorização da adesão terapêutica, dos sintomas associados à doença ou dos eventos adversos dos fármacos; na promoção da capacitação do doente, da família/cuidadores na identificação precoce dos eventos adversos e na comunicação dos mesmos à sua equipa de saúde; na identificação de estratégias para o desenvolvimento de competências de autocuidado, na gestão da doença e dos eventos adversos associados aos tratamentos.