A resposta a esta questão foi dada pelas enfermeiras Sofia Marques, do Hospital Sousa Martins, Vanda Miranda, do Hospital Santa Maria, e Raquel Chemela, do Hospital de Dia Hemato-Oncologia do IPO de Lisboa, na última Sessão Educacional da AEOP16, moderada por Susana Gonçalves, do IPO do Porto, e Inês Claro, do Centro Hospitalar Universitário do Algarve.
Sobre a utilização de imunoterapia no cancro do pulmão de não pequenas células (CPNPC), Sofia Marques descreve que esta “emerge como um promissor tratamento, através da alteração do microambiente do tumor e bloqueio da evasão ao sistema imunitário, combatendo o crescimento e desenvolvimento neoplásico”. Deste modo, adiantou, “e sendo o sistema imunitário o meio utilizado, consegue-se obter não só especificidade, como também memória imunológica”.
A enfermeira partilhou ainda alguns conceitos a propósito da PD-L1 como biomarcador preditivo de resposta à imunoterapia, frisando que “apesar da sua utilidade clínica, a sua performance está longe de ser a ideal”. De acordo com Sofia Marques, “existem vários testes aprovados para a sua determinação, no entanto estes testes não têm a mesma sensibilidade nem reprodutividade”. Assim sendo, “menos de metade dos pacientes selecionados para tratamento em monoterapia com base nos valores de PD-L1 beneficiam com o tratamento e há doentes respondedores com ausência de expressão de PD-L1”.
A palestrante terminou com o foco direcionado para a importância da evolução no sentido da medicina de precisão, na senda de um tratamento cada vez mais personalizado, na medida em que “não há doenças, nem há doentes, mas pessoas com cancro do pulmão”.
Numa apresentação dedicada ao tratamento de primeira linha, Vanda Miranda abordou o papel do cemiplimab no CPNPC, explicando que este medicamento está indicado como monoterapia no tratamento de primeira linha de doentes adultos com CPNPC e com PD-L1 (em ≥ 50% das células tumorais), sem mutações EGFR, ALK ou ROS1, que têm CPNPC localmente avançado e que não são candidatos para quimiorradioterapia definitiva e CPNPC metastático.
Este anticorpo monoclonal foi concebido para reconhecer e ligar-se a um recetor (alvo) denominado PD-1 que se encontra em determinadas células do sistema imunitário denominadas células T. As células cancerígenas podem produzir proteínas (PD-L1 e PD-L2) que se ligam a esse receptor (PD-1) e desligam a atividade das células T, impedindo-as de atacar o cancro. Ao ligar-se ao recetor, o cemiplimab impede que o PD-L1 e o PD-L2 desliguem as células T, aumentando assim a capacidade do sistema imunológico de destruir as células cancerígenas.
Com base na evidência decorrente dos ensaios clínicos com o fármaco, Vanda Miranda afirmou que “pacientes que revelam PD-L1 ≥ 50% tratados com cemiplimab revelaram melhores resultados, com a mediana de sobrevida livre de progressão a ser de 8,1 meses vs. 5,3 meses (com quimioterapia); cemiplimab revelou uma maior taxa de resposta objetiva e uma duração da resposta mais longa em comparação com a quimioterapia”.
Segundo a enfermeira, “os resultados sustentam com evidência as vantagens na escolha de cemiplimab como terapia de 1.ª linha em detrimento da quimioterapia para pacientes com CPNPC (avançado/metastático e com PD-L1 ≥50%).
Ainda de salientar que, resultados do Empower-Lung 1 sugerem que pacientes com altas proporções de PD-L1 (especialmente ≥ 90%) podem ser candidatos ideais para monoterapia com cemiplimab, já que esta opção pode fornecer a melhor relação risco-benefício em comparação com a quimioterapia.
“Os resultados do Empower Lung 1 suportam a hipótese de que a imunoterapia prévia pode aumentar a sensibilidade do tumor à quimioterapia subsequente”, concluiu Vanda Miranda.
Por fim, a gestão de toxicidades major com cemiplimab no tratamento do carcinoma espinocelular cutâneo e do CPNPC foram abordados por Raquel Chemela, que deixou duas mensagens-chave: “os ensaios clínicos apoiam o uso de cemiplimab como terapia de 1.ª linha no tratamento do CPNPC avançado, no que concerne ao estado de saúde global e à qualidade de vida, com redução de carga de sintomas” e “a gestão das toxicidades inicia-se na primeira consulta de enfermagem e as medidas não farmacológicas devem ser prescritas pelo enfermeiro oncologista”.